sexta-feira, 17 de abril de 2015

1973 Minha Infância Acabou


Eu não consigo entender como tudo isso pôde acontecer. Um dia, eu tinha uma família, vivia em uma família. No outro, estava me debatendo em meio à  tempestade que, ao longo dos anos virou um inferno sem saída. Havia sinais, algum escândalo, coisas bizarras, mas em geral a vida, a mim parecia transcorrer dentro de uma normalidade até feliz.


Eu gostava da escola, gostava das coisas: do Natal, dos fins de semana, da expectativa das novidades de cada estação. Era uma ansiedade boa, a cada fim de férias aqueles preparativos para mais um ano letivo: ir na loja, comprar o uniforme.


Dependendo da escola íamos em uma costureira para fazer peças sob medida. E na sapataria, sempre o mesmo espanto do vendedor com com meu número - 38 aos nove anos: Mas ela é alta para a idade, não é? Eu era.




E naquelas tardes nas quais Lecticia (minha mãe) chegava da rua no táxi fusca amarelo sem o banco da frente, cheia de pacotes que eram os materiais do novo ano letivo. Que delícia! Poder abrir os volumes, folhear os livros, ler as lições, experimentar fazer os exercícios. 

 

- Deixa o livro menina, vai ficar usado antes da aula começar. E nós encapávamos com plástico, juntas, um a um aqueles livros e os cadernos também. Para mim, tudo aquilo era muito bom.


Lecticia bem conhecia minha ansiedade no começo das aulas. Estava sempre ali, naqueles primeiros dias, 6 da manhã, me ajudando, porque eu, com as mãos nervosas, tinha dificuldade até para fechar os botões do uniforme. No primeiro dia eu ficava tensa como uma noiva porque não queria esquecer de nada.


Era tudo emocionante. Cruzar o portão dando tchau ao meu pai, procurar minha sala, entrar em fila no primeiro sinal, cantar o hino E eu nervosinha. Só melhorava depois que ouvia meu nome sendo citado na chamada - Presente!


Ufa! Tudo estava bem! Eu estava mesmo na escola, na sala certa, em mais um ano de aulas, recreio, brigadeiro, guaraná, pular elástico, jogar baleado, tirar nota oito e achar muito pouco porque eu queria sempre um dez.


Esperar meu pai na saída e que alegria! Ao ver o brilho do sol no capô da Rural azul e branca e, depois do Aerowillys prateado... Quando ele comprou um Opala azul, as coisas já não iam tão bem assim. Eu tinha oito anos. 

 

Minha irmã contava 10 anos e tinha começado a estudar em outra escola. Era o ginásio. Um lugar cheio de 'gente jovem com cara de gente grande e ruim.


Escola 'muderna em Salvador - na Bahia, Colégio Aplicação - cujo uniforme era calça jeans, tênis e as camisetas, embora mantivessem o escudo da instituiçao, tinham opção de umas cinco cores de modo que os alunos nem pareciam estar vestindo roupa de colégio. Impressionante!


Eu e meu pai ia-mos juntos buscá-la. Eu ficava ali com ele sentada num banco de pedra com meu uniforme, uma jardineira de tecido xadrez miúdo azul, camisa de tecido branco por baixo, meia três quartos, brancas também e sapato preto de passadeira.


Ficava puxando a saia para baixo, cobrindo as coxas, nem sei direito por que. Só sei que naquele lugar eu não me sentia bem. Aqueles adolescentes olhavam a gente, a mim e a meu pai de um jeito diferente que aqui eu só posso traduzir como - entre o hostil, debochado e desconfiado.


Naquele ano, tudo mudou. Devagar, mas mudou. Minha irmã começou a ter umas tais aulas de tarde. Tarde mesmo; ela voltava muito tarde. Outras vezes, mesmo pela manhã, fomos buscá-la e ela já tinha saído. Chegávamos em casa, ela não estava lá. Demorava-se e quando aparecia, questionada, dava umas respostas que eu nem prestava atenção mas, definitivamente, meu pai não ficava nada feliz.


O som da casa mudou. Agora, vozes alteradas, até gritos tornavam-se cada vez mais frequentes. Nos fins de semana, depois do almoço de domingo na casa dos meus avós - uma tradição, meu pai deu de sair. Deixava-nos em casa e saía.


Ficava fora a tarde toda e quando finalmente chegava, estava bêbado. Patético e violento. Não dava para não ver. Mesmo que eu não quisesse, eu era forçada a prestar atenção naquilo. E era feio, muito feio. 1973. Minha infância acabou.

Um comentário:

  1. Diabos.

    Comigo foi mais cedo, aos 9 anos, em 1982.

    Foi medíocre e mais podre.

    Pra mim, em casa, a podreira nunca acabou.

    É repugnante demais.

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